A Bahia no Alvo do Atlas da Violência
Salvador lidera ranking, e a resposta exige capital social, escola forte e proteção da terceira idade.
Os dados do Atlas da Violência 2026 trouxeram um veredicto amargo: Salvador lidera o ranking das capitais mais violentas do Brasil. Esta edição examina indicadores, causas estruturais e caminhos de resposta baseados em evidências.
INTRODUÇÃO
Os dados do Atlas da Violência 2026 trouxeram um veredicto amargo: Salvador lidera o ranking das capitais mais violentas do Brasil (52,7 homicídios por 100 mil habitantes). Isso exige mais do que indignação; exige uma resposta baseada em evidências.1
Antes de discutir programas, políticas de governo ou disputas eleitorais, é preciso encarar um fato que nenhuma retórica consegue esconder: a violência se tornou uma das principais barreiras ao desenvolvimento humano, econômico e social da Bahia.
Não se trata apenas de números frios registrados em relatórios estatísticos. Por trás de cada aspecto de violência, de cada homicídio, de cada jovem perdido para o crime, de cada família destruída pelo luto, existe uma cidade que vê parte de seu futuro ser interrompido.
Existem mães que enterram filhos, crianças que crescem sem referências paternas, comunidades inteiras que aprendem a conviver diariamente com o medo e a sensação permanente de insegurança, além de uma economia que perde oportunidades de prosperidade.
Os dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, reunidos no Atlas da Violência 2026, colocam Salvador e sua região metropolitana entre os territórios que mais demandam atenção das políticas públicas de segurança no Brasil.
O diagnóstico é preocupante, mas não surpreendente. A violência não nasce do acaso. Ela é resultado de processos históricos de exclusão social, desigualdade territorial, ausência de oportunidades para a juventude, fragilidade das políticas preventivas e enfraquecimento dos mecanismos comunitários de proteção social.
Durante décadas, o debate público brasileiro foi conduzido por uma falsa dicotomia. De um lado, aqueles que acreditam que a repressão policial, isoladamente, seria capaz de resolver o problema. De outro lado, os que imaginam que apenas políticas sociais bastariam para conter o avanço da criminalidade.
A realidade demonstra que ambas as visões são insuficientes quando aplicadas de forma isolada da realidade de uma comunidade. A segurança pública eficaz exige inteligência, integração institucional, presença do Estado e investimento contínuo nas causas estruturais da violência.
É justamente nesse ponto que emerge a relevância do “Pacto pela Vida”. Mais do que um programa social, trata-se de uma concepção moderna de política pública baseada em evidências, metas, monitoramento de indicadores e articulação entre diferentes áreas do Estado e da Sociedade.
A experiência internacional e os estudos contemporâneos da criminologia demonstram que os melhores resultados na redução dos homicídios são alcançados quando segurança, educação, assistência social, cultura, esporte, urbanismo e geração de emprego atuam de maneira coordenada. Não existe solução simples para um problema complexo.
Na perspectiva teológica, vejo uma ferida aberta no tecido da fraternidade e da solidariedade que deveriam sustentar a teia da vida coletiva. Pelas lentes da filosofia, reconheço a insuficiência de ferramentas racionais para examinar a realidade, o que revela o fracasso de uma sociedade em garantir condições mínimas para o florescimento do conhecimento, da ética e da dignidade humana.
De acordo com a ciência política, que nos capacita a analisar, de forma empírica e teórica, as relações de poder, a estrutura do Estado e o funcionamento das instituições sociais, compreendo que a violência representa uma crise de governança.
Mas é através da minha formação trabalhista, herdeira da tradição política que sempre associou desenvolvimento econômico à justiça social, que entendo que combater a violência significa ampliar oportunidades, fortalecer a cidadania e devolver esperança às populações historicamente marginalizadas.
Por essa razão, a discussão que estabelecemos aqui neste artigo, sobre a relação entre Estado e Sociedade, não pode se limitar à contagem de vítimas ou à exploração política do medo, mas se basear em políticas estruturais, inteligência organizacional e garantia de direitos, afastando-se da espetacularização da violência.
O verdadeiro desafio consiste em compreender por que determinadas políticas funcionam, quais resultados produziram, onde precisam ser aperfeiçoadas e como podem ser fortalecidas para enfrentar uma realidade cada vez mais complexa. O Atlas da Violência não deve ser lido apenas como um retrato da tragédia. Deve ser interpretado como um chamado à ação.
Neste artigo, examinaremos o que os indicadores revelam sobre a situação da Bahia, com foco em Salvador. Analisaremos as causas estruturais que alimentam os ciclos de violência e demonstraremos por que o “Pacto pela Vida” pode ser uma das respostas técnicas e socialmente mais consistentes para enfrentar esse desafio.
Mais do que discutir segurança pública, estamos falando da construção de uma sociedade onde o direito de viver, sonhar e prosperar não seja privilégio de alguns, mas garantia de todos, baseando-se em pilares fundamentais como educação inclusiva, distribuição de renda, combate às desigualdades estruturais e garantia de direitos humanos.
Aconteceu, o JUSTAMENTE NEWS explica!
Boa leitura!
1. A RESPOSTA TÉCNICA: CAPITAL SOCIAL
Quando o “Atlas da Violência” aponta Salvador como um dos territórios que mais exigem atenção das políticas públicas de segurança, a leitura mais comum costuma ser imediatista: aumentar policiamento, endurecer penas ou ampliar ações repressivas.
Essas medidas têm seu lugar institucional, mas são insuficientes quando descoladas daquilo que sustenta a convivência social. A violência não é apenas um problema policial; ela é, sobretudo, um sintoma de fragilização do tecido social. É nesse ponto que entra uma resposta técnica muitas vezes negligenciada no debate público: o fortalecimento do Capital Social.
O conceito de capital social ganhou centralidade nas ciências sociais contemporâneas justamente por explicar por que algumas comunidades conseguem enfrentar crises, reduzir conflitos e construir ambientes mais seguros, enquanto outras permanecem presas a ciclos de desconfiança e violência.
Para Pierre Bourdieu (1980), sociólogo francês, filósofo de formação, de origem campesina, o Capital Cultural corresponde ao conjunto de recursos ligados às redes de relações duráveis e ao pertencimento a grupos sociais capazes de gerar apoio, reconhecimento e cooperação.
Já Robert Putnam (2000) amplia essa compreensão ao afirmar que, na esteira do “Capital Cultural”, o “Capital Social” se manifesta com base na confiança mútua, nas normas de reciprocidade e nas redes de participação cívica que facilitam a ação coletiva.
Em termos práticos, isso significa que uma cidade mais segura não depende apenas da presença do Estado armado, mas da existência de vínculos comunitários fortes, associações ativas, escolas integradas ao território, igrejas e organizações sociais funcionando como espaços de pertencimento, famílias com capacidade de proteção e políticas públicas que estimulem cooperação em vez de isolamento social.
O que isso tem a ver com você?
A resposta é direta: a violência cresce com mais intensidade onde o Capital Social se enfraquece. Bairros marcados por desemprego estrutural, evasão escolar, ausência de equipamentos culturais, baixa participação comunitária e desconfiança nas instituições tornam-se mais vulneráveis ao recrutamento de jovens pelo crime organizado.
Quando o Estado aparece apenas de forma repressiva, sem construir presença cidadã, os territórios urbanos passam a ser ocupados por outras formas de poder, como as facções criminosas ligadas ao narcotráfico e as milícias formadas por agentes de segurança pública ativos ou inativos e, em áreas rurais, a grilagem e o garimpo ilegal.
Nesse sentido, é preciso entender a atuação de facções criminosas no Brasil não apenas como um problema de segurança pública, mas como uma grave ameaça à soberania e ao Estado Democrático de Direito. O poder paralelo impõe controle territorial, restringe direitos fundamentais da população e desafia o monopólio legítimo da força e da coerção que pertence ao Estado.2
O economista e cientista político Francis Fukuyama (1996) observa que sociedades com altos níveis de confiança social tendem a apresentar melhores resultados econômicos, políticos e institucionais, porque conseguem cooperar com menor custo de conflito.
Na segurança pública, isso se traduz em algo essencial: comunidades que confiam entre si e nas instituições cooperam mais com investigações, previnem conflitos locais, protegem crianças, adolescentes e idosos e criam barreiras sociais contra a expansão da criminalidade.
“Pacto Pela Vida” - Além da Política de Segurança.
O “Pacto pela Vida” é uma estratégia de reconstrução dessa noção de “Capital Social”. Sua lógica técnica parte da integração entre diferentes áreas do Estado e da Sociedade, reconhecendo que homicídios não são reduzidos apenas com operações policiais, mas com prevenção territorial, acompanhamento de jovens em situação de risco, fortalecimento da educação, acesso à cultura, mediação de conflitos e participação comunitária.
Essa abordagem dialoga com a teoria da “Eficácia Coletiva” desenvolvida por Robert Sampson (2012), que demonstra que bairros capazes de manter coesão social e disposição para agir coletivamente conseguem controlar melhor a violência, independentemente de sua renda média.
A segurança pública moderna não se faz apenas com viaturas, armas e tecnologias de ponta, mas também com Capital Social. A força de uma comunidade está em suas redes de confiança. As comunidades religiosas de Salvador são as maiores detentoras desse Capital Social, chegando onde o Estado é ausente.
Em outras palavras, comunidades organizadas podem produzir proteção social real, mesmo em contextos econômicos adversos, ativando redes de solidariedade, criando sistemas de ajuda mútua (como bancos comunitários e cooperativas), o que aumenta o Capital Social para garantir a segurança pública, inclusive, a segurança alimentar e financeira.
Do ponto de vista prático, fortalecer o Capital Social exige pelo menos cinco frentes concretas:
- <u>Escola como Centro da Comunidade</u>: A escola precisa deixar de
ser apenas espaço de transmissão de conteúdo e tornar-se núcleo de convivência, esporte, cultura, orientação familiar e proteção juvenil. Quanto maior o vínculo do jovem com a escola e com projetos comunitários, menor a probabilidade de envolvimento com a violência.
- <u>Ocupação Positiva dos Territórios</u>: Praças iluminadas,
bibliotecas, centros culturais, quadras esportivas e equipamentos públicos ativos reduzem a sensação de abandono e ampliam a circulação cidadã. A urbanização também é política de segurança.
- <u>Redes de Apoio à Juventude</u>: Programas de primeiro emprego,
formação profissional, mentoria, esporte e arte criam alternativas concretas para adolescentes expostos ao aliciamento do crime organizado.
- <u>Participação Comunitária</u>: Conselhos locais, associações de
bairro, associações comerciais, lideranças religiosas, movimentos sociais e organizações civis precisam ser incorporados à formulação e ao monitoramento das políticas de segurança. Segurança pública não pode ser monopólio burocrático.
- <u>Confiança nas Instituições</u>: Polícia, Ministério Público,
Judiciário, Escola, Instituições Religiosas e Serviços Sociais devem atuar com transparência, respeito aos direitos humanos e capacidade de diálogo com a população. Sem confiança institucional, a cooperação social se rompe.
A grande lição técnica é simples e aprofunda a compreensão de que sociedades seguras são aquelas que conseguem transformar indivíduos isolados em comunidades cooperativas. Onde há Capital Social forte, a violência encontra mais resistência. Onde ele é destruído, o medo, a desconfiança e a criminalidade ocupam o espaço vazio.
A Bahia precisa, portanto, de uma política de segurança pública que vá além do enfrentamento imediato do crime e invista na reconstrução dos vínculos sociais. O combate à violência começa, muitas vezes, antes do disparo da arma: começa na escola, na família, na praça, na igreja, no emprego, na cultura e na capacidade de uma comunidade acreditar que vale a pena cuidar de si mesma.
- **A RESPOSTA SOCIAL: A ESCOLA COMO DEFESA DA IDENTIDADE E GARANTIA
DE INTEGRIDADE**
Quando se analisa a violência apenas pelos números do “Atlas da Violência”, corre-se o risco de enxergar apenas suas consequências e ignorar suas origens. Os homicídios, os assaltos, o recrutamento de adolescentes pelo crime organizado e a expansão das facções não surgem espontaneamente.
Antes de se tornarem problemas de segurança pública, foram problemas de identidade, pertencimento, oportunidade e formação humana. É justamente nesse ponto que a Escola se revela como uma das mais poderosas políticas de prevenção da violência que uma sociedade pode construir.
Ao longo da história, as grandes civilizações compreenderam que a educação não serve apenas para transmitir conhecimentos. Sua função mais profunda é formar pessoas capazes de compreender quem são, qual é o seu lugar no mundo e quais responsabilidades possuem para si mesmas e para com a comunidade.
Quando essa missão falha, abre-se espaço para que outras estruturas assumam o papel de formação da identidade, inclusive organizações criminosas que oferecem aos jovens aquilo que muitas vezes lhes foi negado: reconhecimento, pertencimento, proteção e perspectiva de ascensão.
O educador brasileiro Paulo Freire (1996) afirmava que a educação é um ato de humanização, por meio do qual homens e mulheres se tornam sujeitos de sua própria história. Essa reflexão é especialmente relevante na Bahia, um Estado marcado por profundas desigualdades territoriais e sociais.
Em muitos municípios, a disputa entre o projeto educativo da escola e o projeto de poder das facções criminosas tornou-se uma realidade concreta. Trata-se de uma disputa silenciosa, mas decisiva, pelo imaginário, pelos sonhos e pelo futuro da juventude.
A violência prospera quando a identidade enfraquece. Jovens que não encontram reconhecimento em suas famílias, em suas comunidades ou em suas escolas tornam-se mais vulneráveis a narrativas que prometem respeito por meio da força, status por meio da ilegalidade e pertencimento por meio da violência.
A Escola não é apenas um espaço de aprendizagem; ela é um território de construção de sentido. Além da transmissão de conteúdos programáticos e do currículo formal, atua como um verdadeiro Microterritório de Identidade, onde os alunos exploram sua identidade, constroem seus valores e dão significado às suas próprias experiências e ao mundo ao seu redor.
O sociólogo Émile Durkheim (2011) já observava que a educação é um “Fato Social” fundamental, responsável por moldar o indivíduo, transformando um “ser egoísta” em um “ser social”. Nesse sentido, a Escola garante a coesão social ao transmitir normas, valores e a moral coletiva de uma geração para a seguinte.
Quando a Escola consegue fortalecer vínculos de solidariedade, respeito mútuo e responsabilidade social, ela atua diretamente sobre fatores que reduzem a propensão à violência. Não por acaso, comunidades que apresentam melhores indicadores educacionais tendem também a registrar menores índices de criminalidade e maior capacidade de resolução pacífica de conflitos.
Pesquisas apontam que os impactos do tempo na escola na proficiência de estudantes do 3º e do 6º anos da Educação Básica mostraram que ampliar o tempo diário na escola de 4 para 5 horas já traz ganhos expressivos, embora a faixa de 6 a 7 horas tenha sido considerada como ideal.
Porém, de acordo com os dados dessa pesquisa, essa ampliação só faz diferença se combinada com outros fatores estruturantes, como a infraestrutura escolar, a rede de proteção e fatores pedagógicos. Ou seja, quando há, de fato, uma concepção de Educação Integrativa.3
Entretanto, limitar a função da escola ao desempenho acadêmico é um erro estratégico. O desafio contemporâneo exige uma compreensão mais ampla da educação como instrumento de proteção integrativa, onde a escola é vista como um espaço capaz de garantir não apenas o desenvolvimento cognitivo, mas também a integridade física, emocional, cultural e cidadã dos estudantes.
Essa perspectiva encontra respaldo na concepção de educação integral defendida pelos maiores educadores brasileiros, como Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro, para quem a escola deveria preparar o indivíduo para a vida em sociedade em todas as suas dimensões, e não apenas para o mercado de trabalho.
Na Bahia, onde milhares de jovens vivem em territórios marcados tanto pela vulnerabilidade social quanto pela ocupação de facções criminosas, a presença de uma escola forte, com um modelo de educação integrativa, pode representar a diferença entre dois destinos radicalmente distintos.
Uma escola aberta à comunidade de seu entorno, articulada com a cultura, o esporte, a ciência e a cidadania, cria redes de proteção que dificultam o avanço das dinâmicas de violência. Esse modelo amplia horizontes, fortalece a autoestima e oferece caminhos concretos para a construção de projetos de vida.
Essa compreensão também encontra respaldo na obra do economista James Heckman (2006), prêmio Nobel de Economia, cujas pesquisas demonstram que investimentos educacionais realizados desde a infância produzem impactos duradouros na redução da criminalidade, no aumento da renda e no fortalecimento da participação social.
A literatura em criminologia e economia comprova que a educação é uma das políticas de prevenção à violência mais eficazes a longo prazo. Ela atua diretamente nos fatores que impulsionam o crime. Em outras palavras, investir em educação não é apenas uma política pedagógica; é também uma política de segurança pública baseada em evidências.4
Por essa razão, qualquer estratégia séria de enfrentamento à violência, no Brasil e, especificamente, na Bahia, precisa compreender a escola como parte central do “Pacto pela Vida”. Não como uma política complementar, mas como um dos seus pilares estruturantes.
No entretanto, enquanto a segurança pública deve atuar para conter a violência já instalada em um território, a educação deve atuar para impedir que ela se forme e se propague. A polícia protege o cidadão da ameaça imediata; a escola protege o futuro da sociedade.
A verdadeira prevenção da violência tem lugar muito antes da ocorrência do crime. A prevenção começa quando uma criança descobre seu valor, quando um adolescente encontra sentido para sua existência, quando uma comunidade se reconhece em sua própria cultura e quando a escola se transforma em espaço de pertencimento, esperança e oportunidade.
Nessa perspectiva, onde a educação fortalece tanto a identidade quanto o sentido de vida de crianças e adolescentes, a violência encontra menos espaço para prosperar. E onde a escola garante integridade, a sociedade constrói os alicerces mais sólidos para uma Cultura de Paz duradoura.
3. O ALERTA: VULNERABILIDADE NA TERCEIRA IDADE
O “Atlas da Violência” revela uma face cruel: o idoso é penalizado duplamente. Pela violência urbana e pelo “ageísmo” (preconceito de idade teorizado por Robert Butler). Quando a segurança falha, o idoso perde o convívio e a dignidade. Proteger quem já deu tanto pela nossa terra é um dever moral do novo Trabalhismo.
Ao discutir violência urbana, o debate público costuma concentrar sua atenção sobre a juventude. Essa preocupação é legítima, sobretudo diante da rede de recrutamento das facções criminosas e dos elevados índices de homicídios que atingem adolescentes e jovens adultos.
Entretanto, uma análise mais cuidadosa dos impactos da violência revela uma realidade frequentemente invisibilizada: os idosos também estão entre as principais vítimas da insegurança social que se espalha pelos grandes centros urbanos brasileiros.
Na Bahia, essa questão torna-se ainda mais relevante quando observada à luz de duas transformações simultâneas. De um lado, o crescimento da violência apontado pelos indicadores de segurança pública. De outro, o acelerado envelhecimento da população.
Essas duas tendências caminham juntas e produzem um desafio novo para as políticas públicas: como proteger uma população idosa cada vez maior em uma sociedade marcada por desigualdades, fragilização dos vínculos comunitários e aumento da sensação de insegurança?
O envelhecimento populacional representa uma das mais profundas mudanças demográficas do século XXI. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a longevidade constitui uma das maiores conquistas da humanidade, mas também exige a construção de ambientes sociais capazes de garantir autonomia, proteção e qualidade de vida às pessoas idosas.
Viver mais é uma conquista civilizatória. Viver mais com dignidade é uma responsabilidade coletiva. Entretanto, a violência contra a pessoa idosa não se manifesta apenas na forma dos crimes que costumam ocupar as manchetes policiais. Ela assume contornos mais amplos e muitas vezes silenciosos.
Aparece nos roubos e furtos que restringem a mobilidade dos idosos, nos golpes financeiros que comprometem suas economias, na violência psicológica praticada dentro dos próprios lares, na negligência familiar, no abandono afetivo e na exclusão dos espaços de participação social. Trata-se de uma violência que fere não apenas a integridade física, mas também a dignidade humana.
O sociólogo e filósofo francês Pierre Bourdieu já observava que a exclusão social frequentemente se manifesta por meio da invisibilidade dos grupos considerados menos produtivos dentro da lógica econômica dominante, sobretudo a economia de matriz neoliberal.
Em sociedades fortemente orientadas pela valorização da juventude e da produtividade, os idosos correm o risco de serem percebidos não como sujeitos de direitos, mas como indivíduos socialmente descartáveis. Essa percepção, ainda que muitas vezes implícita, cria condições para a naturalização de diferentes formas de violência e discriminação.
A vulnerabilidade da terceira idade também está relacionada ao enfraquecimento do Capital Social. Como demonstra Robert Putnam (2000), já abordado neste trabalho, comunidades marcadas por elevados níveis de confiança, participação cívica e cooperação tendem a oferecer maior proteção aos seus membros mais vulneráveis.
Quando os vínculos comunitários se rompem, cresce o isolamento social, diminui a rede de apoio e aumenta a exposição dos idosos a situações de risco. Essa reflexão é particularmente importante em nosso contexto estadual. Em muitos bairros dos municípios baianos, a presença dos idosos representa um dos principais elementos de estabilidade comunitária.
São homens e mulheres que preservam memórias, valores, tradições culturais e redes de solidariedade construídas ao longo de décadas. Quando essas pessoas vivem sob o medo permanente da violência, toda a comunidade perde uma parte de seu patrimônio humano e social.
Sob essa perspectiva, o “Pacto pela Vida” não pode ser compreendido apenas como uma política de redução de homicídios. Sua efetividade deve ser medida também pela capacidade de proteger aqueles que se encontram em situação de maior vulnerabilidade.
O que estamos estabelecendo aqui, com as reflexões desenvolvidas neste artigo, é que a questão da Segurança Pública não significa apenas a ausência do crime; é a garantia concreta de que crianças, jovens, adultos e idosos possam exercer plenamente seu direito a ir e vir.
A filósofa Martha Nussbaum (2011) sustenta essa afirmação, argumentando que uma sociedade verdadeiramente justa é aquela que cria condições para que todas as pessoas desenvolvam suas capacidades humanas fundamentais ao longo de toda a vida.
Essa concepção amplia o debate sobre Segurança Pública no conjunto dos interlocutores especializados na temática, levando-nos a uma conclusão importante: proteger a Terceira Idade não é apenas uma questão assistencial. Trata-se de um imperativo ético e democrático para o estabelecimento de um pacto civilizatório.
Por isso, qualquer estratégia séria de enfrentamento da violência precisa incorporar o envelhecimento populacional ao centro de sua agenda. Isso significa fortalecer políticas de convivência comunitária, ampliar os espaços de participação social dos idosos, combater a violência patrimonial e psicológica, garantir mobilidade urbana segura, promover inclusão digital e valorizar a contribuição da chamada geração prateada para o desenvolvimento da cidade.
Afinal, a forma como uma sociedade trata seus idosos revela muito mais do que suas políticas públicas. Revela seus valores, sua compreensão de justiça e sua capacidade de reconhecer que a dignidade humana não possui prazo de validade. Onde os idosos vivem com medo, a cidadania está incompleta. Onde envelhecer é seguro, toda a sociedade se torna mais humana.
CONCLUSÃO - O CAMINHO PARA 2026
O debate sobre segurança pública não estará completo enquanto continuarmos a enxergar a pessoa idosa apenas como destinatária de políticas assistenciais. Essa visão limitada ignora o papel ativo que a população da terceira idade desempenha na sociedade.
O envelhecimento da população baiana impõe uma mudança de perspectiva, pois representa um grupo à margem do desenvolvimento e parte essencial do nosso patrimônio humano, cultural e social. Nas pessoas da terceira idade estão preservadas memórias, experiências, saberes e valores que ajudam a sustentar a identidade coletiva de nossas comunidades.
Quando um idoso deixa de frequentar a praça de seu bairro por medo da violência, quando evita utilizar o transporte público por insegurança, quando se torna vítima de golpes, abandono ou isolamento social, não é apenas um direito individual que está sendo violado.
Essa situação limita a mobilidade das pessoas idosas, prejudicando a sua vitalidade. A violência não retira apenas bens materiais ou vidas; ela rompe vínculos, enfraquece a convivência e corrói a confiança que sustenta a vida em sociedade.
Por isso, a proteção da Terceira Idade deve ser compreendida como um dos indicadores mais importantes da qualidade da Segurança Pública. Uma comunidade verdadeiramente segura não é aquela onde apenas os mais fortes conseguem circular livremente.
Uma sociedade verdadeiramente integrativa e sadia é aquela onde uma criança pode brincar livremente, um jovem pode sonhar com um futuro promissor, um trabalhador pode prosperar pelo fruto do seu próprio trabalho e um idoso pode envelhecer com dignidade, autonomia e tranquilidade.
Nesse sentido, o “Pacto pela Vida” precisa ser entendido em sua dimensão mais ampla. Seu êxito será medido pela capacidade de fortalecer comunidades, ampliar a proteção social e garantir que os grupos mais vulneráveis estejam efetivamente amparados pelo poder público. A segurança que interessa à população não é apenas a ausência do crime. É a presença da cidadania.
A Bahia vive hoje um duplo desafio: enfrentar a violência e adaptar-se a uma sociedade em rápido envelhecimento. Tais desafios exigem políticas públicas intersetoriais, o que impõe investimentos em prevenção social e segurança adaptada.
Essas agendas não podem caminhar separadas. O combate ao etarismo e a garantia do bem-estar social dependem de políticas públicas com ações coordenadas de proteção, inclusão da pessoa idosa e sistemas integrativos de saúde.
O mesmo investimento em educação integral, fortalecimento comunitário, saúde preventiva, mobilidade urbana, inclusão digital e participação cidadã que reduz a violência também melhora as condições de vida da população idosa. Trata-se, portanto, de uma única estratégia de desenvolvimento humano.
A chamada geração prateada não deve ser vista como um problema a ser administrado, mas como uma força social a ser valorizada. Homens e mulheres que construíram suas famílias, ajudaram a desenvolver suas comunidades e contribuíram para o crescimento da cidade merecem mais do que respeito simbólico. Merecem proteção concreta, oportunidades de participação e o reconhecimento de sua importância para o presente e para o futuro.
No fundo, a questão é simples: a forma como tratamos nossos idosos revela o tipo de sociedade que estamos construindo. Se desejamos uma Bahia mais segura, mais justa e mais humana, precisamos assegurar que aqueles que chegaram primeiro possam continuar caminhando conosco.
Afinal, uma comunidade que protege sua memória fortalece sua identidade. E uma sociedade que cuida preferencialmente de suas crianças e adolescentes e dignifica a trajetória de seus idosos demonstra que ainda acredita no valor da vida em todas as suas etapas.
Referências
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1 atlas-violencia-2026-relatorio-completo.pdf. Acesso em: 10/06/2026.
2 Território do crime: Brasil tem 26% da população vivendo sob regras de facções, maior índice na América Latina. Acesso em: 10/06/2026.
3 Educação Integral: mais tempo para quê?. Acesso em: 10/06/2026.
4 SANTOS, Robson Gouvea; SILVA, Rozineide Iraci Pereira. A integração entre segurança pública e educação: evidências teóricas e empíricas na prevenção da violência em jovens e comunidades vulneráveis. IN, Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação. Acesso em: 10/06/2026.
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Sobre o autor
Ricardo Justo
Articulista do JUSTAMENTE NEWS. Análises sobre políticas públicas, Cultura de Paz e desenvolvimento humano na Bahia.

