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Crônicas Trabalhistas

O Mundo do Trabalho e o Mundo da Vida vividos nas ruas, nos bairros e no cotidiano do povo baiano.

Crônicas do Trabalhismo Vivo · Por Ricardo Justo
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Nota Editorial — As crônicas do Justamente News são textos literários produzidos com liberdade criativa. Algumas narrativas podem ser inspiradas em fatos, lugares ou personagens reais, enquanto outras incorporam elementos ficcionais, simbólicos ou imaginários. O objetivo é estimular a reflexão, a sensibilidade e o diálogo por meio da arte da palavra.

Crônica nº 9 · Crônicas Trabalhistas

Um Samurai na Bahia: guardar a honra para não repetir a derrota

30 de junho de 2026 · Por Ricardo Justo

Esta segunda-feira amanheceu diferente no Brasil, especialmente no bairro do Imbuí, em Salvador, Bahia. Nas televisões espalhadas pelos bares da Av. Jorge Amado, ao longo da Rua Jaime Sapolnik, na principal delicatessen da Rua Prof. Jairo Simões, bem como nas rodas de conversas improvisadas nas esquinas e nos grupos de WhatsApp que nunca dormem, o assunto era um só: o jogo do Brasil contra o Japão.

E como todo brasileiro carrega no peito essa estranha e bonita capacidade de transformar futebol em conversa sobre a vida, não demorou muito para que eu me pegasse pensando em algo maior do que o placar.

No início da tarde, que marcava o encerramento do ciclo das tradicionais festas juninas, caminhando pela rua Jairo Simões em direção à praça central do Marback, Imbuí, fui tomado por uma reflexão auriverde.

Talvez porque a Bahia tenha aprendido, há muito tempo, a conviver com culturas que chegam de longe e acabam fazendo morada definitiva em nossa identidade. Pouca gente percebe o quanto a cultura japonesa já faz parte da vida soteropolitana. A cultura nipo-brasileira está nas tradicionais celebrações promovidas pela comunidade nipônica no bairro de Brotas; nas artes marciais que ocupam academias populares em vários bairros da cidade; nos restaurantes orientais que hoje fazem parte do cotidiano de bairros como Imbuí, Pituba, Rio Vermelho e Caminho das Árvores. Está presente, também, nos jovens que aprendem mangá, anime, origami e até filosofia oriental como quem descobre novas maneiras de interpretar o mundo.

Salvador, que sempre foi esse grande encontro de civilizações, aprendeu cedo a dialogar com o Japão. E talvez seja justamente por isso que a vitória da seleção brasileira sobre a seleção japonesa me fez pensar numa diferença fundamental entre duas culturas políticas.

O povo japonês construiu, historicamente, valores profundamente ligados à disciplina, à memória coletiva e ao compromisso comunitário. O velho espírito do Bushidō, o código de honra dos samurais, ensina-nos algo simples e poderoso: quem carrega responsabilidade não pode esquecer o dever assumido.

E foi então que me lembrei de uma conversa nesse percurso entre a rua Prof. Jairo Simões para o conjunto Guilherme Marback, onde está situada a Associação Comunitária do bairro do Imbuí. Estava ali, na praça localizada em frente à USF Imbuí e ao CMEI Castro Alves, atrás do supermercado Assaí, ouvindo moradores falarem sobre aquilo que realmente pesa no cotidiano das pessoas: a violência que restringe a liberdade, a coleta de lixo irregular, ruas escuras que se transformam em territórios do medo, serviços públicos que parecem existir apenas no papel.

No meio da conversa, resolvi fazer uma pergunta aparentemente simples:

— Dona Janete… Seu Eduardo… vocês lembram em quem votaram para Deputado Federal, Estadual ou Senador na última eleição?

O que veio depois me marcou profundamente. Não foi exatamente silêncio. Foi algo muito mais inquietante. Os olhos de ambos procuravam respostas numa memória que parecia ter desaparecido. Uma tentativa sincera de lembrar nomes que, curiosamente, já não habitavam mais a consciência de quem os escolheu.

E ali, observando aquela cena, pensei numa dura contradição brasileira: somos um povo que lembra as escalações das seleções das Copas do Mundo, recorda gols históricos, conhece estatísticas de jogadores, mas muitas vezes não consegue recordar quem escolheu para decidir o próprio destino político.

E isso, sinceramente, não é um simples esquecimento. É sintoma de algo muito mais grave. É o retrato de uma democracia que começa a adoecer quando o voto deixa de ser consciência e passa a ser apenas ritual automático de apertar teclas no dia de votar.

Expliquei ali, aos moradores, algo que venho defendendo há anos como educador, pesquisador e político: “Quando alguém vota sem compreender o peso da própria escolha, acontece algo muito perigoso. É como entregar as chaves da própria casa a um desconhecido e esperar, ingenuamente, que ele cuide melhor do patrimônio do que o próprio dono.”

A grande tragédia brasileira não é apenas votar errado. É votar sem compreender as relações políticas que sequestram o inconsciente coletivo. Sempre acreditei que a Educação Política talvez seja a ferramenta mais revolucionária que podemos oferecer ao nosso povo. Não basta apertar números numa urna, é preciso: entender o funcionamento do Estado; compreender as responsabilidades institucionais; fiscalizar mandatos; cobrar coerência daqueles em quem votamos.

Porque é exatamente isso que separa o verdadeiro representante público do velho personagem eleitoral, a “raposa política” — aquele político que aparece apenas de quatro em quatro anos, distribui promessas, ocupa temporariamente o imaginário popular e desaparece logo depois, deixando o povo exatamente onde sempre esteve: esperando.

Talvez devêssemos aprender algo com a filosofia japonesa: “um samurai jamais esquece o compromisso assumido”. Já nós, brasileiros, muitas vezes, esquecemos justamente aqueles a quem entregamos o poder de decidir sobre a qualidade das nossas escolas, hospitais, segurança pública, transporte e futuro coletivo.

Na tarde desta segunda-feira, 29 de junho, dia em que se comemora São Pedro, ninguém saiu daquela praça do Imbuí sem uma resposta sobre os principais nomes de candidatos que realmente podem representar o bairro. Todos saímos com uma certeza inquietante.

O maior problema da democracia brasileira não está nas urnas. Talvez esteja no fato de que aprendemos a votar, mas ainda não aprendemos a lembrar das nossas escolhas políticas.

A sentença final veio do Seu Eduardo: “Um povo que esquece quem escolheu corre sempre o risco de continuar entregando, repetidas vezes, o próprio destino a quem jamais esteve verdadeiramente comprometido com seu futuro. No Japão, a honra nasce da memória. No Brasil, talvez a democracia só amadureça quando o eleitor compreender que lembrar do nome daqueles que se colocam como representantes políticos também seja um ato de busca incessante pela honra, colocando o dever, a coragem e a justiça acima da própria vida e interesses.”

Pensamento do dia

“A democracia começa a enfraquecer no instante em que o voto deixa de ter consciência e se transforma em automatismo. Um povo que lembra gols históricos, mas esquece quem escolheu para governar seu destino, corre o risco de viver eternamente refém de decisões que nunca verdadeiramente tomou. Educação política não é luxo intelectual. É memória coletiva transformada em cidadania.”
Crônica nº 8 · Crônicas Trabalhistas

O Guarda-Roupas de Mazarino: a alfaiataria do silêncio e o figurino do poder

28 de junho de 2026 · Por Ricardo Justo

A geometria do poder, caro leitor, raramente se desenha em linhas retas. Ela prefere o arabesco, o ponto cego e a costura invisível. No teatro das vaidades que habitamos e que hoje ganha contornos de uma moderna “Crônica Trabalhista”, observamos fenômenos que fariam os geômetras da Grécia Antiga questionarem a natureza do espaço e da substância.

Hoje eu despertei com aquela socrática ironia de quem finge não saber que a generosidade é a virtude dos reis. Mas, como Platão bem nos ensinou, a forma aparente não deve ser confundida com a essência; o que se aplica perfeitamente à minha sede de conhecimento.

Diante de uma boa xícara de café, enquanto a ironia socrática esvaziava as minhas certezas para fazer nascer esta reflexão, como quem observa o conteúdo da xícara se esvaziando do precioso líquido arábico, a dialética platônica me convidava a transcender a aparência sensível em direção à verdadeira natureza da virtude.

No tempo de Platão, um dos principais conflitos sociais versava sobre a concentração fundiária nas mãos de uma elite oligárquica e o empobrecimento e endividamento dos camponeses, levando o filósofo a defender que o bom governante deveria ser guiado pela sabedoria, pelo conhecimento do bem e pela capacidade de decidir em favor da coletividade.

Essa disputa social polarizou a sociedade ateniense e foi a grande motivação por trás das reformas de Sólon, que proibiram a escravidão por dívidas, e das reflexões políticas de Platão. O princípio central dessa visão é o bem comum acima dos interesses individuais, uma ideia que permanece relevante em qualquer debate sério sobre gestão organizacional e convivência social.

Para o criador do “Mundo das Ideias”, quando um proprietário de terra, em um gesto de aparente desprendimento, “entregava” uma gleba a alguém recém-chegado de outras pastagens, ou “concedia” um lote a outro que estava há mais tempo, ele se perguntava se estaríamos diante de uma partilha justa ou de uma lição de alta costura política?

A história, essa mestra silenciosa, gosta de se repetir em sussurros. Marx escreveu sobre Hegel dizendo que o “Pai do Idealismo Alemão” afirmava que “todos os grandes fatos e personagens da história mundial ocorrem duas vezes”, acrescentando: “a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”.

Quem conhece a saga do Cardeal Mazarino, sucessor do Cardeal Richelieu, sabe muito bem que ele entendia como poucos a anatomia do favor. Para neutralizar o altivo Duque de Beaufort (um rival que ousava brilhar mais que a coroa), Mazarino não o exilou, nem o aprisionou em masmorras frias. Ele fez algo muito mais cruel: ofereceu-lhe o solene cargo de “Guarda-Roupas do Rei”.

Que honra! Supervisionar as sedas, os veludos e os botões do monarca, pensariam aqueles que gostam de “se fartar” nos seios do poder.

Na prática, Beaufort foi reduzido a um mordomo de luxo, um assistente de vestuário cujo prestígio político foi castrado pela própria nobreza do cargo. O favor era, em verdade, um cadafalso adornado de rendas. Beaufort vestia o rei enquanto Mazarino despia o Duque de qualquer influência real.

Ao olharmos para as concessões de hoje, pergunto-me, com uma dúvida metódica que causaria inveja a René Descartes: o que é um cargo político-administrativo, senão um vasto guarda-roupa quando a chave do cofre e o fio da estratégia permanecem em outras mãos?

E o que seria uma nomeação para liderar uma instituição com visíveis patologias organizacionais? Esse quinhão de terra política dado a um correligionário fiel não seria a honrosa tarefa de organizar os “cabides” para que os recém-chegados possam desfilar suas novas vestes?

Esse lote político assemelha-se ao que Émile Durkheim (filósofo francês, considerado o pai da sociologia) chamou de “anomia”, para descrever a ausência de normas claras ou a perda de sentido das regras, gerando um estado de caos, perda de identidade e falta de engajamento das equipes.

A virtude do líder, dizem os filósofos desde Platão, está em saber que o poder não se “dá”. O que se entrega é a forma; a substância, essa é retida pela mão que assina o decreto. Há quem receba cargos e imagine-se general, sem perceber que lhe foi entregue apenas a responsabilidade de polir as medalhas alheias.

É fascinante observar como a estética do favor pode ser, simultaneamente, um ato de acolhimento e uma sentença de imobilidade. Aqueles que chegam, seduzidos pelo veludo da honraria, talvez ainda não tenham notado que o tecido é pesado demais para quem pretende correr.

E o fiel escudeiro, orgulhoso de seu lugar na corte, pode estar apenas guardando a porta de um salão onde não foi convidado para sentar-se à mesa principal. Ele pode até se orgulhar do uniforme que veste e da importância que projeta aos olhos dos outros, mas, no fim das contas, está apenas servindo aos interesses de quem realmente toma as decisões.

Como Sócrates, sigo perguntando: quem é mais livre? O que recebe o presente ou o que se livra do peso de tê-lo? E como Platão, afirmo: o poder real não habita na nomeação, mas na capacidade de definir a moda que os outros serão obrigados a vestir. No fim, entre glebas e lotes, a política segue sendo a arte de vestir Beaufort para que Mazarino possa governar nu, sem ser notado.

Pensamento do dia

“O poder raramente se revela naquilo que entrega, mas quase sempre naquilo que retém. Na geometria invisível das relações humanas, muitos celebram a honra do cargo, do favor ou da conquista, sem perceber que, por vezes, receberam apenas a forma, enquanto a substância permanece cuidadosamente guardada por outras mãos. Como nos ensinaram Sócrates e Platão, a verdadeira liberdade não está em ocupar espaços concedidos, mas em compreender quem, de fato, define as regras do jogo. Afinal, na política, nas organizações e na própria vida, nem todo presente representa autonomia; alguns apenas vestem a aparência da importância, enquanto o poder real segue silenciosamente decidindo os destinos. O poder, disse Max Weber, não pertence a quem ocupa o lugar de destaque, mas a quem desenha, em silêncio, o mapa invisível que organiza o mundo ao redor.”
Crônica nº 7 · Crônicas Trabalhistas

Entre o Grito do Gol e o Silêncio das Desigualdades: o que está em jogo no Brasil de 2026?

25 de junho de 2026 · Por Ricardo Justo

Dizia Nelson Rodrigues, com aquela sua ironia cirúrgica e dramática, que o brasileiro, quando se veste de verde e amarelo, deixa de ser um “vira-lata” para se tornar a “Pátria de Chuteiras”.

Mas se o “Profeta do Óbvio” estivesse circulando atualmente pelos corredores da política baiana ou observando o frenesi de um ano de Copa e Eleições, talvez acrescentasse: a pátria, além de chuteiras, anda precisando de um bom par de óculos para não confundir o drible do centroavante com o drible do orçamento.

É um capricho do destino, ou talvez uma ironia de algum demiurgo que cuida do calendário, que o ápice do nosso sentimento de soberania esportiva aconteça sempre poucos meses antes de decidirmos o nosso destino nas urnas.

Em junho, somos todos “Estrategistas” de boteco, escalando a seleção com a precisão de um Max Weber na busca da impessoalidade e da racionalidade na organização ou Peter Drucker (pai da gestão moderna) e Michael Porter (estratégia competitiva) discutindo gestão.

Em outubro, voltamos a ser apenas meros e desiludidos eleitores tentando entender por que a “gestão de conflitos” na área técnica da seleção é muito mais eficiente do que na porta da escola pública ou no posto de saúde do bairro.

Como não nos lembrarmos dos belos momentos de Copas passadas. Em 1958, o Brasil descobriu que não era apenas o país do café, mas o país de Pelé e Garrincha. Era o auge do Trabalhismo desenvolvimentista de Getúlio Vargas, onde a Petrobras era nossa e a taça também. Havia um projeto de nação que parecia correr no mesmo ritmo dos passes de Didi. Ali, a “Pátria de Chuteiras” e a “Pátria de Direitos” pareciam jogar no mesmo time.

A ironia, porém, reside na temporalidade. Existe uma espécie de “anestesia do hexa”. Se ganhamos, o país mergulha numa euforia que faz o preço da cesta básica parecer um detalhe estatístico perto do brilho da taça. Se perdemos, o luto nacional é usado como cortina de fumaça para as manobras de última hora na calada da noite legislativa.

No Brasil, o futebol é, na verdade, a continuação da política por outros meios, com a diferença de que, no campo, o VAR funciona (às vezes), enquanto na política, o VAR costuma estar convenientemente “fora do ar”.

Eu me pergunto: por que não aplicamos a mesma paixão do “Pacto pela Vitória” no nosso “Pacto pela Vida”? Por que aceitamos que Salvador lidere o ranking do medo no Atlas da Violência, mas não aceitamos um empate contra uma seleção de segunda linha?

O torcedor que abraça o vizinho de ideologia oposta quando sai o gol deveria ser o mesmo cidadão que exige que a escola de tempo integral seja um campo de “Cultura de Paz”, e não um vestiário de conflitos.

A soberania nacional não se resume a levantar um “caneco” de ouro; ela se consolida quando transformamos o resíduo sólido que polui os nossos bairros em energia limpa, com a mesma maestria com que transformamos um escanteio em gol de placa.

Sim, a política, como o futebol, é um jogo de gestão estratégica. Mas, ao contrário da Copa, na política não há prorrogação que salve uma gestão sem projeto. A eleição de outubro é a nossa “final de campeonato” real. E o meu receio, com todo o bom humor que a baianidade me dá, é que o povo continue vibrando com a “Pátria de Chuteiras” enquanto os mesmos de sempre continuam jogando para o gasto, garantindo o deles e deixando o resto da torcida na arquibancada do esquecimento.

Há uma seleção importante de pensadores, como Milton Santos, quando insistia que uma nação não pode ser definida apenas pelo espetáculo, mas pela capacidade de produzir cidadania, e também de Paulo Freire, para quem democracia se realiza quando o povo deixa de ser apenas espectador e se torna sujeito da história.

Nesta Copa, vamos torcer. Mas vamos lembrar que, em outubro, o juiz apita o início do jogo onde o troféu não vai para a estante da CBF, mas para a escola, o posto de saúde, o prato de comida e para a carteira de trabalho de cada trabalhador e trabalhadora. Que a nossa Pátria aprenda, de uma vez por todas, a votar com a mesma precisão com que torce por um pênalti no último minuto: com os olhos no futuro e os pés bem fincados na realidade.

Pensamento do dia

“A verdadeira soberania de um país não se mede apenas pelo brilho da taça, mas pela dignidade nos pés de quem caminha em paz pelas ruas. Que a nossa paixão por um gol de placa em junho seja a mesma que exige uma eleição de placa em outubro. Afinal, no grande jogo da cidadania, não existe VAR que corrija a falta de um projeto de nação.”
Crônica nº 6 · Crônicas Trabalhistas

Por Isso Vem, Entra na Roda com a Gente Também, Onde o Tijolo, o Trabalho e a Fé Edificam Esperança

23 de junho de 2026 · Por Ricardo Justo

Dona Edna observava a rua por entre as grades da janela de sua casa, no pequeno município de Irajuba/Ba, que tem apenas 6.232 habitantes. Desse ponto de vista, ela contempla o novo Colégio de Tempo Integral Professor Isaias Aleixo, uma estrutura imponente, moderna, que custou milhões e brilha sob o sol do meio-dia.

O Colégio possui 11 salas de aula, uma quadra poliesportiva e laboratórios dedicados ao ensino integral, atendendo 330 estudantes em diversos níveis, incluindo Ensino Médio, EJA e Educação Profissional com cursos técnicos disponíveis.

É o “tijolo” do progresso, o investimento que a propaganda celebra efusivamente. Mas quando o sol se põe, Dona Edna vem hesitando em caminhar os 15 minutos que a separam da sua igreja, a Paróquia Santo Antônio, onde sempre buscou conforto espiritual.

Esse contraste é o retrato fiel da Bahia de 2026. Temos os prédios mais modernos do país, mas o Atlas da Violência ainda nos aponta como a capital do medo. O equilíbrio entre o avanço econômico e a garantia de segurança para toda a população permanece como um dos principais desafios estruturais discutidos por gestores públicos, analistas e cidadãos.

Para nós, herdeiros do Trabalhismo, esse paradoxo dói. Brizola nos ensinou que a escola é o templo da cidadania. Darcy Ribeiro nos disse que paredes não educam sozinhas. Joviniano Neto escreveu que a Igreja é a depositária de princípios como solidariedade, fraternidade e o respeito à família, pilares comuns entre a fé e o bem-estar social pregado pelos Trabalhistas.

Nossos líderes sempre mantiveram diálogo aberto com instituições religiosas, a exemplo de Getúlio Vargas com a Igreja Católica, João Goulart, que utilizou encíclicas papais para fundamentar suas propostas de reformas de base, e Brizola, que foi educado por um pastor metodista, ganhando o seu leitmotiv para realizar os CIEPS. Se a Igreja é o corpo e a Escola é a mente, a Paz se tem na alma.

O que Dona Edna e milhares de baianos têm sentido é o vácuo entre o concreto e a convivência. É nesse vácuo que reside o meu trabalho. Quando defendo o “Manual de Gestão de Conflitos para a Comunidade Escolar”, não estou falando de burocracia pedagógica. Estou falando de dar vida àquelas paredes, garantindo que o tempo integral da educação seja também um tempo de paz.

Uma escola que ensina a “Gestão de Conflitos e a Cultura de Paz”protege não só o aluno, também irradia respeito para toda a vizinhança do seu entorno, inclusive combatendo o ageísmo e a exclusão que isolam os nossos idosos, como no caso da Dona Edna.

Quando as forças de segurança estatais são percebidas, muitas vezes, apenas por uma viatura que passa rápido, a Igreja é a única porta que permanece aberta. É o “Capital Social” de Putnam, na sua forma mais pura. É o poder em estado latente no qual a Cultura de Paz se completa e onde o povo já se sente seguro: na fé.

Esse fato latente ganhou um profundo significado com a recente homenagem que o Congresso Nacional prestou à Diocese de Salvador, em evento ocorrido em 27 de maio de 2026. Não foi apenas um ato solene; foi um reconhecimento tardio do que já pregamos no “Pacto pela Vida”.

O evento homenageou os 475 anos da Diocese de São Salvador da Bahia e os 350 anos de sua elevação a Arquidiocese, celebrando o marco da Diocese, fundada em 1551, a primeira do território brasileiro, que serviu de base para a organização da Igreja Católica no país.

O Alinhamento da Esperança que proponho é justamente este: “levantar tijolos (a infraestrutura pública) com a fé e o trabalho (o capital social da comunidade) para transformar mentalidades e promover a inclusão social”. O Trabalhismo do nosso tempo precisa ser a ponte entre esses dois mundos.

Segurança Pública não se faz apenas com a tinta da caneta, mas com a firmeza do diálogo e a inteligência da gestão. O cotidiano da Bahia não quer mais ser estatística de ranking negativo; quer ser a crônica de um povo que tem trabalho digno, voltou a ocupar as praças, que vê seus netos na escola e seus avós caminhando em paz.

Esse povo precisa voltar a ter aquele antigo e novo cântico nos lábios que diz assim: “Deus chama a gente pra um momento novo, de caminhar junto com Seu povo. É hora de transformar o que não dá mais. Sozinho, isolado, ninguém é capaz…”

Pensamento do dia

Por isso vem, entra na roda com a gente também. Você é muito importante. O trabalho de construir a “Educação para a Gestão de Conflitos e Cultura de Paz” é o que nos move. É transdisciplinar, é humano, é urgente. Por isso vem, entra na roda com a gente também!
Crônica nº 5 · Crônicas Trabalhistas

Guardião da Memória e do Silêncio

21 de junho de 2026 · Por Ricardo Justo

Estava eu, outro dia, no restaurante “La Napoletana”, que fica próximo da sede do PDT, na Mouraria, acompanhado de meus correligionários, após uma reunião no partido onde discutimos sobre os rumos da política trabalhista na Bahia.

Ao ocuparmos uma mesa, o “Chef” da Casa, Sr. Antônio, aproximou-se sugerindo a "Pizza Antônia", especialidade da casa criada pelo proprietário em homenagem à sua mãe, combinando cogumelo-paris, alho, mussarela e gorgonzola.

O cheiro da massa se misturava com o sotaque carregado de “resenha”. Na TV suspensa, Carlo Ancelotti Cavaliere (Ancelotti), técnico da Seleção Brasileira 2026, com sua sobrancelha arqueada e uma calma de quem já viu todos os esquemas possíveis, tentava organizar o nosso time para o jogo contra a Seleção do Haiti.

Em frente à nossa mesa, um cidadão com uma camisa da seleção brasileira gesticulava mais que o próprio técnico. “Rapaz, se eu fosse o Ancelotti, tirava logo esse Raphinha e botava pressão!”, bradava ele, entre uma garfada e outra, como se o destino da pátria dependesse da sua visão periférica.

Sorri comigo mesmo, divagando num breve pensamento: No Brasil, o título de “técnico”é a profissão mais exercida sem diploma. Somos 200 milhões de estrategistas, prontos para demitir quem não entrega o milagre na próxima jogada. Mas, enquanto Ancelotti tentava arrumar a “cozinha” do time, uma notícia chamou a minha atenção para outra “cozinha”, bem menos republicana: a dos escândalos que os meios de comunicação insistem em nos servir.

De relance, acompanhei o noticiário com uma manchete sobre as relações obscuras envolvendo o “Banco Master” e as figuras de Brasília. É curioso: no futebol, exigimos o rigor do “VAR” para um impedimento de milímetros; na política, parecemos aceitar jogadas de mão que fariam Maradona corar de inveja. E o que é mais fascinante (ou trágico) é a nossa mania incurável de buscar um “Salvador da Pátria”.

Olhei para o cidadão que tinha uma alternativa melhor para a seleção brasileira, mas que não deu a mínima importância para os atuais acontecimentos políticos noticiados pelo mesmo aparelho de TV em que ele tinha os olhos fixos, e comentei com o meu grupo: “quando o esquema tático da nossa democracia falha, em vez de treinarmos a base e cobrarmos as instituições, tem gente que enterra a cabeça na TV, enquanto outros correm para o aeroporto pedindo intervenção externa”.

Já tinha visto, com uma mistura de ironia e pesar, os pedidos de “socorro” ao Donald Trump, como se o presidente dos EUA fosse o técnico reserva capaz de entrar no segundo tempo para resolver os nossos “passes errados”. É o ápice do nosso“complexo de vira-lata”: se não conseguimos governar a nossa própria"grande área", chamamos o dono da bola de outro país para apitar o jogo.

Lembrei-me de uma conversa que tive recentemente com a minha Editora, que me propôs escrever sobre o “Guardião da Memória e do Silêncio”.

A reflexão que fiz com ela sobre essa proposta foi que quem guarda a memória e o silêncio não é aquele que se cala por omissão, mas aquele que observa o ruído das falsas promessas e prefere o silêncio da reflexão profunda, na certeza de que não se ganha nada sem estratégia.

Com esse pensamento na mente, voltei para o grupo e disse: nós, brasileiros, precisamos aprender que nenhum messias, seja ele interno ou importado da Itália ou de Mar-a-Lago, vai resolver a fragilidade dos nossos times, sistemas bancários ou das nossas urnas por nós.

Enquanto o cidadão ao meu lado continuava escalando o seu time platônico, um sino soou anunciando a "Pizza Antônia". Da cozinha do restaurante“La Napoletana”, a deliciosa especialidade da casa foi servida à nossa mesa. Entre cogumelos-paris, alho, mussarela e gorgonzola, numa borda fumegante, iniciamos um ritual degustativo sagrado, com risadas soltas e conversas amenas.

O cidadão, com a camisa da seleção canarinho, cujo nome fiquei sabendo que era Francisco, perguntou-me se eu achava que o Brasil seria Hexacampeão, quando falei para ele: “o Brasil, meu amigo, só vai ser campeão de verdade quando pararmos de esperar pelo milagre do técnico estrangeiro e começarmos a ser os técnicos da nossa própria ética cotidiana”.

Pensamento do dia

Na Bahia, cedo a gente aprende que o sucesso é como o pôr do sol no Porto da Barra: lindo, mas passageiro; e o fracasso é como uma chuva de verão nas periferias: inunda, mas logo o sol aparece de novo. O cidadão baiano deve portar-se no sucesso com a humildade de quem sabe que a sorte é um ciclo, e no fracasso com a dignidade de quem já resistiu a tudo sem perder o compasso. Nem o aplauso deve nos subir à cabeça, nem a queda deve nos tirar o passo. O segredo? Guardar a Memória e o Silêncio, mantendo o equilíbrio entre o sucesso e o fracasso. No final, o que importa é a paz de ter jogado limpo. No campo ou na urna, quem espera por um salvador acaba sempre sendo o primeiro a ser sacrificado.
Crônica nº 4 · Crônicas do Trabalhismo Vivo

O Cheiro do Café e a Verdade das Ruas

18 de junho de 2026 · Por Ricardo Justo

Entrar na comunidade do Bate-Facho, no bairro do Imbuí, em Salvador, Bahia, é um exercício de reencontro para mim. Não é uma visita de quem vem de fora, mas o caminhar de um vizinho que reconhece, em cada viela, a força e a resistência da nossa gente.

Esta comunidade representa um clássico exemplo de fronteira social e espacial em Salvador, sintetizando o fenômeno de forte segregação urbana, onde bolsões de pobreza coexistem em proximidade geográfica imediata com áreas de classes médias e altas.

O que poucas pessoas veem é que, dentro do Bate-Facho, o comércio é uma força que pulsa, movimentando milhões de reais anualmente na economia soteropolitana. Longe de ser apenas um espaço de carência, a comunidade é um polo econômico local, onde a circulação de renda, bens e serviços fortalece o próprio Microterritório de Identidade Urbana.

É digno de nota o fato de que uma parcela significativa da renda da maioria absoluta dos moradores seja proveniente, direta e indiretamente, das relações trabalhistas exercidas no seu entorno, com os habitantes atuando como provedores de serviços domésticos e comerciais, entre outros.

O volume financeiro arrecadado no comércio local é moldado por dinâmicas de consumo específicas. O Bate-Facho não é carência, é mercado. Um mercado que compra, vende, constrói, investe e transforma. Ignorar essa força é abrir mão da relevância econômica na Bahia real.

Nessa quarta-feira fui tomar um cafezinho na lanchonete da Elisandra, que é mais do que um comércio. Esse espaço é um ponto de convergência onde a vida comunitária pulsa no ritmo das idas e vindas da vizinhança. Entre um cafezinho quente e o aroma de acolhimento, sentei-me para conversar e ouvir as histórias do dia a dia das pessoas dali.

Parafraseando Darcy Ribeiro, “não se iluda comigo, leitor. Além de filósofo, sou homem de fé e de partido. Faço política e faço ciência movido por razões éticas e por um fundo de patriotismo. Não acredito em uma neutralidade científica absoluta, pois vejo a vida e o conhecimento como formas de militância política e social. Não procure, aqui, análises isentas.”

A minha escuta é qualificada e baseada no Trabalhismo que defendo, aprendido com Brizola, Darcy Ribeiro, Lysâneas Maciel, Chico Leite e Joviniano Neto que sempre me falaram que colocar os pés no chão da realidade é o primeiro passo para qualquer transformação real.

À minha volta, na lanchonete de Elisandra, uma síntese da Bahia: crianças com olhos curiosos, jovens sedentos por oportunidades, adultos indo e vindo da labuta e idosos que carregam a memória do bairro. Foi então que meus olhos encontraram o senhor mais velho da comunidade do Bate-Facho.

Em seu corpo, ele ostentava com orgulho uma camisa de um projeto que desenvolvemos juntos, ali mesmo, em 2022. Aquele tecido gasto pelo tempo era o testemunho de que a minha presença não é sazonal; é fruto de uma construção histórica e prática.

A conversa, porém, ganhou tons de desabafo. Com a autoridade de quem pisa no barro todos os dias, aquele senhor apontou as “veias abertas do Bate-Facho”. Falou da enchente que inunda ruas e invade casas quando chove mais forte e o rio transborda; reclamou da ponte prometida por um político, um elo de mobilidade que nunca foi concluído, deixando a comunidade isolada em suas próprias necessidades.

Testemunhei, com meus próprios olhos, o esgoto a céu aberto serpenteando entre as casas, um insulto à dignidade humana e à saúde pública. Além disso, vi uma estrutura abandonada que teria sido um projeto de ponte para a população atravessar o rio.

Ouvi de uma moradora, a D. Beta, proprietária de um restaurante popular, que muitos ali sofrem com doenças como a leptospirose (transmitida pela urina de ratos na água), hepatite A, doenças diarreicas agudas (pelo consumo de água contaminada) e tétano (por cortes na água suja).

E por falar em saúde, o relato sobre o posto local foi desolador. Elisandra, testemunha ocular do fluxo diário deste posto de saúde, disse que as portas sempre ficam fechadas ao meio-dia, sob o pretexto do almoço, sem qualquer escala de substituição que garanta o atendimento a quem não tem hora para adoecer.

Uma senhora, que passava apressada para os seus afazeres domésticos, observando-me atentamente, aproximou-se e disse palavras que ecoam como um mandato:

“Seu Justo, a gente precisa de gente nossa, que olhe por nós e que venha aqui sempre. Estamos cansados de quem só aparece em época de eleição, caçando voto e sumindo depois.”

Essa fala me fez refletir sobre a clareza que precisamos ter acerca das funções públicas. Muitos não sabem, mas a engrenagem da mudança passa por entender os papéis parlamentares: enquanto o “Deputado Estadual” atua na Assembleia Legislativa, focado nas leis e na fiscalização do Governo do Estado, o “Deputado Federal” leva nossa voz a Brasília, criando leis nacionais e fiscalizando o Governo Federal.

No entanto, o papel do parlamentar, seja ele qual for, não termina no gabinete ou na tribuna. O representante do povo deve ser um articulador estratégico, destinando emendas parlamentares que não fiquem no papel, mas que se criem impactos positivos na vida cotidiana das pessoas.

Emendas parlamentares devem ser destinadas para o asfalto na rua, estrutura para a ponte, saneamento para o esgoto, creche para as mães terem tranquilidade no cumprimento de suas jornadas de trabalho, melhorias para que o posto de saúde funcione em tempo integral, recursos para projetos sociais e capacitação em empreendedorismo para que os empreendedores locais tenham mais oportunidades de geração de emprego e renda.

O Trabalhismo que acredito, inspirado em Leonel Brizola, é o de pé no chão. É o do compromisso daqueles que frequentam as lanchonetes, padarias, mercados e feiras locais, não para fazer cena, mas porque é onde a vida comunitária acontece. O cafezinho que tomo na casa das pessoas é o mesmo que tomo na minha: tem gosto de acolhimento e propósito.

Passar uma tarde no Bate-Facho, ao sol que arde na comunidade, é uma oportunidade para trazer luz sobre os problemas ainda não resolvidos, o que reforça a minha convicção: a política só faz sentido quando serve para encurtar a distância entre a promessa e a realidade.

Pensamento do dia

A política que não sente o cheiro do café na casa do trabalhador, não suja o sapato nas ruas enlameadas das periferias e não é solidária com os conflitos existenciais das pessoas é apenas um discurso vazio; a verdadeira política nasce da realidade concreta, fazendo com que a Cultura de Paz não seja apenas um conceito abstrato, mas uma prática diária de justiça social.
Crônica nº 3 · Crônicas Trabalhistas

A Vinha de Nabote em Tempos Modernos

16 de junho de 2026 · Por Ricardo Justo

"Guarde-me, o Senhor, de que eu te dê a herança de meus pais."
1 Reis 21:3 | ACF

Há momentos na vida de uma comunidade em que os fatos concretos deixam de ser apenas acontecimentos locais e passam a revelar algo muito maior sobre a natureza humana, sobre o exercício do poder e sobre o permanente conflito entre autoridade legítima e abuso institucional.

Foi exatamente isso que se viu em recente episódio ocorrido numa pequena comunidade religiosa, quando houve uma tentativa de realizar uma assembleia extraordinária em circunstâncias que suscitam graves questionamentos jurídicos, eclesiásticos e morais. O episódio, por si só, já seria suficientemente preocupante.

Uma assembleia geral extraordinária convocada sem observância dos limites constitucionais previstos nos ordenamentos internos da comunidade, desconsiderando a sua organicidade conciliar e atropelando princípios bíblicos e éticos, foi o sinal de que algo mais profundo estava em jogo. E estava!

No centro dessa controvérsia encontra-se um patrimônio de propriedade da pequena comunidade, em excelente localização de classe média, com forte valorização imobiliária, fruto de sua história, do esforço coletivo e da fidelidade dos membros que construíram não apenas um patrimônio material, mas um legado institucional e espiritual.

Entretanto, quando interesses particulares começam a obscurecer a ética vocacional, o que deveria ser entrega voluntária transforma-se em disputa. O que deveria ser liderança servidora converte-se em estratégia de controle. E aquilo que deveria ser zelo institucional passa a revelar contornos preocupantes de tentativa de apropriação indevida.

Enquanto estava participando da reunião em que se tratou dessa questão, inevitavelmente me veio à mente um dos episódios mais dramáticos das Escrituras: a história da "Vinha de Nabote", relatada em 1 Reis 21, em que o rei Acabe desejava a propriedade de Nabote (um trabalhador israelita da cidade de Jezreel), dono de uma cobiçada vinha localizada ao lado do palácio do rei Acabe.

A propriedade não pertencia ao rei, mas ele a queria. Nabote recusou-se a entregar a herança de seus pais. Então o poder institucional foi mobilizado para construir meios aparentemente legítimos para retirar aquilo que, moralmente e juridicamente, jamais poderia ser tomado.

A grande tragédia da história bíblica não foi apenas a cobiça do rei Acabe. Foi a instrumentalização das estruturas de poder para legitimar uma injustiça contra um trabalhador. No episódio da comunidade em questão, felizmente, a história conheceu um capítulo diferente do relatado no livro de 1 Reis, capítulo 21.

A "assembleia geral extraordinária" não aconteceu! Não aconteceu porque a comunidade se levantou. Porque homens e mulheres comuns compreenderam que instituições existem para proteger direitos, e não para servir como instrumentos de expropriação.

Não aconteceu porque houve resistência legítima. Porque houve consciência coletiva. Porque a própria comunidade percebeu que, quando o direito é violado, o silêncio se torna cumplicidade. E talvez aqui esteja a maior lição política desse episódio.

O Brasil enfrenta diariamente desafios semelhantes em outra escala.

A história nacional mostra que a soberania não se perde apenas quando há invasões estrangeiras ou ameaças militares. Muitas vezes ela é corroída internamente, quando estruturas criadas para proteger a coletividade passam a operar em favor de grupos que desejam concentrar poder, controlar recursos e decidir sobre aquilo que pertence legitimamente ao povo brasileiro.

A defesa do patrimônio comunitário, no episódio recente daquela comunidade religiosa, ensina-nos uma verdade constitucional profunda: toda autoridade só é legítima quando respeita os limites da lei. A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 ilumina essa discussão de forma muito clara.

Quando cidadãos deixam de defender seu território institucional, cedo ou tarde descobrem que a omissão abre caminho para a captura das instituições.

O episódio ocorrido naquela comunidade religiosa tornou-se, ainda que involuntariamente, uma pequena metáfora do Brasil. Uma comunidade que compreendeu que o patrimônio não é apenas terra ou imóveis. Patrimônio é ato de zelo, mordomia fiel e coragem.

Patrimônio é memória.

Patrimônio é identidade.

Patrimônio é soberania.

E soberania nunca pode ser entregue a projetos construídos nas sombras do abuso de autoridade.

Talvez o país precise aprender exatamente isso: a democracia não se sustenta apenas nas grandes eleições nacionais. Ela se preserva nas pequenas resistências cotidianas, quando cidadãos comuns decidem proteger aquilo que pertence legitimamente à coletividade.

Porque toda vez que alguém tenta tomar a "Vinha de Nabote", a sociedade precisa decidir se ficará calada... ou se lembrará de que Justiça e Paz são os fundamentos de toda verdadeira comunidade.

Reflexão do dia

Quando o poder abandona a Justiça e transforma autoridade em instrumento de apropriação, resistir em defesa do que pertence ao povo deixa de ser escolha e passa a ser dever moral para o estabelecimento da Paz.
Crônica nº 2 · Crônicas Trabalhistas

O Cadeado Invisível das Estruturas Emocionais

14 de junho de 2026 · Por Ricardo Justo

A segunda edição das nossas Crônicas Trabalhistas já está saindo do forno. O tema é denso, mas vamos tratá-lo com aquela mistura de indignação e perspicácia que os meus leitores esperam.

Era um domingo de manhã e eu estava indo para a Igreja Presbiteriana de Ipitanga quando, passando vagarosamente pela Av. Brg. Mário Epingaus, no Centro de Lauro de Freitas, presenciei uma cena que me fez pensar mais do que qualquer livro de exegese teológica.

Eram pouco mais de oito horas da manhã, chovia uma chuva fina e insistente. Estacionei o carro para tomar um cafezinho na padaria, quando vi uma senhora hesitar, por alguns segundos, antes de atravessar a rua em frente de sua casa. Aquela senhora parecia carregar a dor de toda uma comunidade no rosto.

Por um relance, percebi que ela olhava em direção a mim e, ao mesmo tempo, para os lados, apertando a bolsa contra o peito e, por fim, desistiu. Voltou para dentro do portão de sua residência e passou o cadeado, demonstrando pavor. A fome de pão foi menor que o banzo do medo.

Ali, naquele portão fechado antes do dia iniciar com um café da manhã dominical, eu vi o que as estatísticas do Índice de Progresso Social (IPS) 2026 tentam nos dizer com números frios. Ocupamos as últimas posições não por falta de sol, de fibra ou de trabalho, mas porque estamos sendo enclausurados por um cadeado invisível. O "ir e vir", que a Constituição garante com letras tão bonitas, na prática, virou um "se der, eu vou; se for seguro, eu volto".

O medo da violência é um imposto silencioso que a gente paga com a própria vida. Esse sentimento de pânico restringe os afazeres domésticos, impacta o lazer, afeta o bem-estar e, no fim do dia, drena a energia que o trabalhador deveria usar para produzir, criar e viver.

Enquanto bebia meu cafezinho, pensei: "Como falar em Inteligência Organizacional ou Gestão Estratégica se a base da pirâmide, a segurança, está tremendo? É igual a construir uma casa na areia, como descrito na parábola contada por Jesus, em Mateus 7:24-27".

Minha conclusão mental sobre aquela situação foi clara: o progresso social não se mede apenas por PIB ou grandes obras. Mede-se pela liberdade que uma senhora tem de ir comprar pão para a sua família, sem achar que está cruzando uma zona de guerra.

Enquanto o medo for o nosso guia de trânsito, o Índice de Progresso Social (IPS) continuará nos dando notas baixas, e com toda razão. Afinal, uma sociedade em que as pessoas não podem circular livremente é uma sociedade que está, literalmente, estacionada no atraso.

A violência não rouba apenas celulares e carteiras; ela rouba a nossa espontaneidade de ser baiano, aquela alegria de prosear no portão ou ir à padaria. Estamos trocando a "Cultura de Paz" por cadeados mentais que, no fundo, só servem para nos lembrar de que somos prisioneiros do lado de dentro.

Reflexão do dia

No ranking do progresso social, a gente só vai subir de degrau quando a Dona Maria puder sair de casa para comprar o pão, sem que isso seja um ato de heroísmo.
Crônica nº 1 · Crônicas Trabalhistas

A Labuta de Estacionar a Vida na Paralela

12 de junho de 2026 · Por Ricardo Justo

Lá estava eu, numa segunda-feira de maio, em plena Avenida Paralela, naquele sol de Salvador que não pede licença, só entra. O relógio marcava 12h45, o horário em que a cidade decide, coletivamente, que ninguém mais sai do lugar. À minha frente, um mar de luzes de freio vermelhas que pareciam rir da minha pressa de chegar ao meu compromisso das 15h00, onde eu daria uma palestra sobre "Gestão de Conflitos". A ironia já começava ali: como gerir o conflito entre o meu desejo de avançar e o para-choque do SUV à minha frente?

Olhei para o lado e vi um entregador de aplicativo, equilibrando uma mochila térmica gigante numa moto que parecia cansada de viver. Ele aproveitava o congestionamento travado para checar o celular. A agilidade dos dedos dele no brilho da tela contrastava com a imobilidade das rodas no asfalto. Pensei: "Ali está o resumo da nossa era". A tecnologia voa a 5G, mas o nosso direito de ir e vir ainda está preso em buracos e gargalos de planejamento urbano que parecem herança do século passado.

O motorista do ônibus ao lado abriu a janela e soltou um suspiro que carregava o peso de quem já tinha feito aquele trajeto pela terceira vez no dia. Dentro do coletivo, rostos colados ao vidro, olhos fixos em telas de celulares, buscando escapar da realidade de um trajeto que consome no mínimo 2 horas de vida para entregar mais do que 8 horas de serviço. É o trabalho antes do trabalho; a jornada invisível que o patrão não paga, mas que tem um enorme impacto na saúde mental.

Enquanto eu observava aquela sinfonia de buzinas e impaciência, percebi que o trânsito é o maior laboratório de gestão de conflitos que existe. É onde a nossa civilidade é testada por um "fechamento" indevido ou por uma vaga disputada no grito. Ali, no calor do asfalto, a "Cultura de Paz" que eu tanto defendo nos livros parece um conceito de outro planeta. Mas é justamente ali que ela se faz mais urgente.

No fim das contas, entre uma freada e uma acelerada, a gente vai percebendo que a vida moderna transformou o caminho no próprio destino. Passamos tanto tempo "em trânsito" para o trabalho, para levar os filhos à escola ou para os compromissos diários que esquecemos que a dignidade do trabalhador também passa pelo direito de não ser humilhado no próprio deslocamento.

Cheguei em meu compromisso 1 hora e meia depois. O organizador do evento já estava lá na entrada do prédio me esperando. Mas a maior lição do dia eu já tinha aprendido: no grande engarrafamento da vida, quem não cultiva a Cultura de Paz acaba virando apenas mais uma peça barulhenta na engrenagem dos conflitos cotidianos.

Reflexão do dia

Ao sair de casa, a gente não vai apenas para o trabalho, para a escola ou ao compromisso do dia; a gente atravessa uma odisseia diária para ter o privilégio de cansar.