Esta segunda-feira amanheceu diferente no Brasil, especialmente no bairro do Imbuí, em Salvador, Bahia. Nas televisões espalhadas pelos bares da Av. Jorge Amado, ao longo da Rua Jaime Sapolnik, na principal delicatessen da Rua Prof. Jairo Simões, bem como nas rodas de conversas improvisadas nas esquinas e nos grupos de WhatsApp que nunca dormem, o assunto era um só: o jogo do Brasil contra o Japão.
E como todo brasileiro carrega no peito essa estranha e bonita capacidade de transformar futebol em conversa sobre a vida, não demorou muito para que eu me pegasse pensando em algo maior do que o placar.
No início da tarde, que marcava o encerramento do ciclo das tradicionais festas juninas, caminhando pela rua Jairo Simões em direção à praça central do Marback, Imbuí, fui tomado por uma reflexão auriverde.
Talvez porque a Bahia tenha aprendido, há muito tempo, a conviver com culturas que chegam de longe e acabam fazendo morada definitiva em nossa identidade. Pouca gente percebe o quanto a cultura japonesa já faz parte da vida soteropolitana. A cultura nipo-brasileira está nas tradicionais celebrações promovidas pela comunidade nipônica no bairro de Brotas; nas artes marciais que ocupam academias populares em vários bairros da cidade; nos restaurantes orientais que hoje fazem parte do cotidiano de bairros como Imbuí, Pituba, Rio Vermelho e Caminho das Árvores. Está presente, também, nos jovens que aprendem mangá, anime, origami e até filosofia oriental como quem descobre novas maneiras de interpretar o mundo.
Salvador, que sempre foi esse grande encontro de civilizações, aprendeu cedo a dialogar com o Japão. E talvez seja justamente por isso que a vitória da seleção brasileira sobre a seleção japonesa me fez pensar numa diferença fundamental entre duas culturas políticas.
O povo japonês construiu, historicamente, valores profundamente ligados à disciplina, à memória coletiva e ao compromisso comunitário. O velho espírito do Bushidō, o código de honra dos samurais, ensina-nos algo simples e poderoso: quem carrega responsabilidade não pode esquecer o dever assumido.
E foi então que me lembrei de uma conversa nesse percurso entre a rua Prof. Jairo Simões para o conjunto Guilherme Marback, onde está situada a Associação Comunitária do bairro do Imbuí. Estava ali, na praça localizada em frente à USF Imbuí e ao CMEI Castro Alves, atrás do supermercado Assaí, ouvindo moradores falarem sobre aquilo que realmente pesa no cotidiano das pessoas: a violência que restringe a liberdade, a coleta de lixo irregular, ruas escuras que se transformam em territórios do medo, serviços públicos que parecem existir apenas no papel.
No meio da conversa, resolvi fazer uma pergunta aparentemente simples:
— Dona Janete… Seu Eduardo… vocês lembram em quem votaram para Deputado Federal, Estadual ou Senador na última eleição?
O que veio depois me marcou profundamente. Não foi exatamente silêncio. Foi algo muito mais inquietante. Os olhos de ambos procuravam respostas numa memória que parecia ter desaparecido. Uma tentativa sincera de lembrar nomes que, curiosamente, já não habitavam mais a consciência de quem os escolheu.
E ali, observando aquela cena, pensei numa dura contradição brasileira: somos um povo que lembra as escalações das seleções das Copas do Mundo, recorda gols históricos, conhece estatísticas de jogadores, mas muitas vezes não consegue recordar quem escolheu para decidir o próprio destino político.
E isso, sinceramente, não é um simples esquecimento. É sintoma de algo muito mais grave. É o retrato de uma democracia que começa a adoecer quando o voto deixa de ser consciência e passa a ser apenas ritual automático de apertar teclas no dia de votar.
Expliquei ali, aos moradores, algo que venho defendendo há anos como educador, pesquisador e político: “Quando alguém vota sem compreender o peso da própria escolha, acontece algo muito perigoso. É como entregar as chaves da própria casa a um desconhecido e esperar, ingenuamente, que ele cuide melhor do patrimônio do que o próprio dono.”
A grande tragédia brasileira não é apenas votar errado. É votar sem compreender as relações políticas que sequestram o inconsciente coletivo. Sempre acreditei que a Educação Política talvez seja a ferramenta mais revolucionária que podemos oferecer ao nosso povo. Não basta apertar números numa urna, é preciso: entender o funcionamento do Estado; compreender as responsabilidades institucionais; fiscalizar mandatos; cobrar coerência daqueles em quem votamos.
Porque é exatamente isso que separa o verdadeiro representante público do velho personagem eleitoral, a “raposa política” — aquele político que aparece apenas de quatro em quatro anos, distribui promessas, ocupa temporariamente o imaginário popular e desaparece logo depois, deixando o povo exatamente onde sempre esteve: esperando.
Talvez devêssemos aprender algo com a filosofia japonesa: “um samurai jamais esquece o compromisso assumido”. Já nós, brasileiros, muitas vezes, esquecemos justamente aqueles a quem entregamos o poder de decidir sobre a qualidade das nossas escolas, hospitais, segurança pública, transporte e futuro coletivo.
Na tarde desta segunda-feira, 29 de junho, dia em que se comemora São Pedro, ninguém saiu daquela praça do Imbuí sem uma resposta sobre os principais nomes de candidatos que realmente podem representar o bairro. Todos saímos com uma certeza inquietante.
O maior problema da democracia brasileira não está nas urnas. Talvez esteja no fato de que aprendemos a votar, mas ainda não aprendemos a lembrar das nossas escolhas políticas.
A sentença final veio do Seu Eduardo: “Um povo que esquece quem escolheu corre sempre o risco de continuar entregando, repetidas vezes, o próprio destino a quem jamais esteve verdadeiramente comprometido com seu futuro. No Japão, a honra nasce da memória. No Brasil, talvez a democracia só amadureça quando o eleitor compreender que lembrar do nome daqueles que se colocam como representantes políticos também seja um ato de busca incessante pela honra, colocando o dever, a coragem e a justiça acima da própria vida e interesses.”
Pensamento do dia
“A democracia começa a enfraquecer no instante em que o voto deixa de ter consciência e se transforma em automatismo. Um povo que lembra gols históricos, mas esquece quem escolheu para governar seu destino, corre o risco de viver eternamente refém de decisões que nunca verdadeiramente tomou. Educação política não é luxo intelectual. É memória coletiva transformada em cidadania.”
